Ouvido & Audição
Quantas pessoas não ouvem bem na Região Serrana? O que o Censo mostra
O Censo de 2022 contou 38.133 pessoas com alguma dificuldade para ouvir nos 14 municípios da Região Serrana. Pela régua da Organização Mundial da Saúde, que mede em decibel em vez de perguntar, seriam cerca de 160 mil. Entenda por que os dois números estão certos, por que a Serra pesa mais nessa conta e quando vale investigar a audição.
Resumo Os pontos principais antes de ler tudo.
- O Censo 2022 encontrou 38.133 pessoas com alguma dificuldade para ouvir nos 14 municípios da Região Serrana — 4,85% da população de 2 anos ou mais. Dessas, 9.024 têm muita dificuldade ou não ouvem.
- A OMS mede perda auditiva em decibel, e não por pergunta: ela contabiliza mais de 1,5 bilhão de pessoas com algum grau de perda no mundo — perto de 1 em cada 5 habitantes, proporção que na Serra daria por volta de 160 mil.
- Os dois números estão certos porque medem coisas diferentes: o Censo mede o que a pessoa percebe; a OMS, o que o exame registra.
- A Região Serrana tem 20,5% da população com 60 anos ou mais, acima do estado (18,8%) e do país (15,8%) — e é nessa faixa que a perda auditiva se concentra.
- A perda demora a ser percebida porque é gradual, começa pelos agudos (daí o "ouço mas não entendo") e o outro ouvido compensa. Quem costuma notar primeiro é a família.
Uma pergunta que ouço bastante no consultório é: "Doutor, perda auditiva é comum assim aqui na região, ou é coisa minha?" A resposta direta é que é comum — e dá para dizer quantas pessoas são, porque o dado é público. O Censo de 2022 encontrou 38.133 pessoas com alguma dificuldade para ouvir nos 14 municípios da Região Serrana. Bem, esse é um dos dois números que existem sobre isso — e o segundo, que vem da Organização Mundial da Saúde, é bem maior. Vou explicar por que os dois estão certos, ou seja, por que eles medem coisas diferentes.
Quantas pessoas não ouvem bem na Região Serrana
O Censo Demográfico de 2022 perguntou a todo brasileiro se ele tem dificuldade permanente para ouvir, mesmo usando aparelho auditivo. Somando os 14 municípios da Região Serrana, que juntos têm 801.381 habitantes, o resultado foi este:
- 38.133 pessoas (4,9% das pessoas de 2 anos ou mais) declararam alguma dificuldade para ouvir;
- dessas, 9.024 (1,2%) declararam muita dificuldade ou que não conseguem ouvir de modo algum — é o corte que o IBGE usa para falar em deficiência auditiva.
| Item | Pessoas |
|---|---|
| Petrópolis | 13.529 |
| Nova Friburgo | 9.572 |
| Teresópolis | 7.342 |
| Bom Jardim | 1.327 |
| Cantagalo | 1.284 |
| Cordeiro | 931 |
| São José do Vale do Rio Preto | 763 |
| Carmo | 707 |
| Sumidouro | 609 |
| Santa Maria Madalena | 511 |
| Duas Barras | 509 |
| Trajano de Moraes | 464 |
| São Sebastião do Alto | 295 |
| Macuco | 290 |
Petrópolis, por ser a maior cidade, concentra o maior número. Mas repare que a proporção é parecida em toda a região: fica em torno de 4,9% das pessoas em quase todos os municípios. Ou seja, não é um problema de uma cidade — é do conjunto da Serra.
Por que existem dois números — e os dois estão certos
Bem, aqui está o ponto mais importante deste texto. O Censo mede uma coisa, e a Organização Mundial da Saúde mede outra.
O Censo pergunta. É a pessoa quem responde se tem ou não dificuldade para ouvir. Já a OMS mede em decibel: ela considera perda auditiva quando o exame mostra limiar acima de 20 decibéis no melhor ouvido, tenha a pessoa percebido ou não. E, medindo assim, a OMS contabiliza mais de 1,5 bilhão de pessoas com algum grau de perda auditiva no mundo.
Faço a conta na frente de você, porque ela importa: 1,5 bilhão sobre os cerca de 8 bilhões de habitantes do planeta dá perto de uma pessoa em cada cinco. Aplicando essa mesma proporção à população da Região Serrana, seriam cerca de 160.000 pessoas — quase 4,2 vezes o que o Censo registrou. Ou seja: não é uma contagem feita aqui, é a prevalência mundial trazida para a nossa população.
| Item | Pessoas |
|---|---|
| O Censo contou quem declarou dificuldade para ouvir, mesmo usando aparelho | 38.133 |
| A prevalência da OMS estimaria perda medida acima de 20 dB, na proporção mundial da OMS (mais de 1,5 bilhão de pessoas) | ~160.000 |
Essa diferença não é erro de ninguém. Ela existe porque perda auditiva leve quase não é percebida por quem tem — e quem não percebe responde ao Censo que não tem dificuldade. Some-se a isso que o Censo pergunta "mesmo usando aparelho": quem já trata e ouve bem com o aparelho responde, com razão, que não tem dificuldade. Por isso eu não digo que a diferença toda é gente sem diagnóstico. O que dá para afirmar é mais simples e igualmente importante: entre uma régua e outra mora muita gente que tem perda auditiva e ainda não sabe.
A Serra é mais velha que o Brasil — e isso muda a conta
Existe um motivo a mais para esse assunto pesar por aqui, e ele também está no Censo. A Região Serrana tem 164.248 pessoas com 60 anos ou mais, ou seja, 20,5% da população. É bem acima da média do país.
| Item | Percentual |
|---|---|
| Região Serrana | 20,5% |
| Estado do Rio de Janeiro | 18,8% |
| Brasil | 15,8% |
Isso é muito importante porque a perda auditiva se concentra justamente nessa faixa: a OMS mede perda incapacitante — acima de 35 decibéis — em mais de 25% das pessoas acima de 60 anos. Aplicando esse número só à população idosa da Serra, chega-se a mais de 41.000 pessoas. Sozinha, essa faixa etária já explicaria quase toda a diferença entre as duas réguas do gráfico anterior — o que é um bom sinal de que a conta faz sentido.
Por que a perda auditiva demora tanto a ser percebida
Eu sempre falo que a perda auditiva é discreta, e ela é discreta por três motivos concretos.
O primeiro é que ela costuma ser gradual. Uma coisa que piora ao longo de anos não tem um "antes e depois" para a pessoa comparar. O segundo é que ela começa pelos agudos, ou seja, pelas frequências mais altas — e é nelas que moram consoantes como o s, o f e o ch. O volume da conversa continua parecendo o mesmo; o que se perde é a nitidez. Daí a queixa clássica, que é "eu ouço, mas não entendo", principalmente no restaurante, na igreja ou na mesa de almoço com muita gente falando junto.
O terceiro é que, quando a perda é de um ouvido só, o outro compensa boa parte do dia a dia. Por isso é comum a família perceber antes da própria pessoa — no volume da televisão, no telefone sempre no mesmo ouvido, no pedido para repetir.
O que se perde junto com a audição
Quando eu insisto neste assunto, não é pelo som em si. É porque ouvir mal cobra um preço que aparece longe do ouvido.
O mais comum é o afastamento. A pessoa que não entende a conversa em grupo começa a evitar a mesa cheia, o culto, o almoço de domingo — e passa a participar menos de tudo. Além disso, entender com dificuldade dá trabalho: o esforço que a pessoa faz para completar o que não ouviu direito cansa, e esse cansaço é real.
Por esse motivo, a perda auditiva entrou na discussão sobre saúde do cérebro. A Lancet Commission, que reúne pesquisadores para revisar o que se sabe sobre prevenção de demência, lista a perda auditiva entre os fatores de risco modificáveis ao longo da vida. Aqui é preciso ser exato, e eu prefiro ser conservador: isso quer dizer que existe associação entre as duas coisas na população — não que tratar a audição previna demência em alguém. É motivo para investigar a audição, não é promessa de nada.
O que dá para fazer — e a partir de quando
Bem, o recado prático é curto. Vale procurar avaliação quando:
- você ouve mas não entende, especialmente no barulho;
- pedem para você abaixar o volume da televisão, ou você pede para repetir com frequência;
- há zumbido, tontura, ou sensação de ouvido tapado que não passa;
- você trabalha ou convive com ruído alto;
- a perda apareceu de repente, ou é claramente de um ouvido só — e aqui não se espera, procure avaliação sem demora;
- e, muito importante, quando a criança demora a falar — a audição é a base da fala.
A avaliação começa pela consulta e pela audiometria, que é o mapa da sua audição. Mas o exame é o começo, não o fim: eu sempre falo que o que define o melhor caminho é a etiologia, ou seja, a causa da perda. É ela que diz se o caso é de tratamento clínico, de cirurgia ou de reabilitação auditiva.
E deixo registrado o que repito em toda consulta: o aparelho auditivo não é uma opção pior nem um prêmio de consolação. Ele é o tratamento adequado para boa parte das perdas, e a tecnologia de hoje não se parece com a que as pessoas têm na cabeça.
Alguma dúvida ou alguma pergunta sobre a sua audição, eu vou ter o maior prazer de responder na avaliação.
Dúvidas frequentes
O Censo mede a audição das pessoas?
Não. Ele pergunta se a pessoa tem dificuldade permanente para ouvir, mesmo usando aparelho auditivo. É autodeclaração: mede o que a pessoa percebe, não o que o audiômetro registra. Quem tem perda leve e ainda não percebeu responde que não tem dificuldade — e quem usa aparelho bem adaptado também.
Quais cidades entram nesse número da Região Serrana?
Os 14 municípios da Região Serrana pela divisão do governo do estado do Rio de Janeiro: Petrópolis, Nova Friburgo, Teresópolis, Bom Jardim, Cantagalo, Carmo, Cordeiro, Duas Barras, Macuco, Santa Maria Madalena, São José do Vale do Rio Preto, São Sebastião do Alto, Sumidouro e Trajano de Moraes.
A partir de que idade vale checar a audição?
Não existe uma idade única. A audição é avaliada sempre que há queixa, exposição a ruído, zumbido, tontura ou atraso de fala na criança. A partir dos 60 anos a perda fica bem mais frequente, então vale checar mesmo sem queixa clara — sobretudo se a família já reparou no volume da televisão.
Perda auditiva leve precisa ser tratada?
Precisa ser investigada, que é diferente de tratada. A conduta depende da causa e do quanto a perda atrapalha a vida da pessoa. Uma perda leve pode ser sinal de uma causa com tratamento próprio — por isso a investigação vem antes de qualquer decisão sobre aparelho ou cirurgia.
Ouço bem de um ouvido só. Isso conta como perda auditiva?
Conta, e merece avaliação. Ouvir com os dois ouvidos é o que permite localizar de onde vem o som e entender a fala no meio do barulho. Perda em um ouvido só, principalmente quando aparece de forma súbita, precisa ser avaliada sem demora.
Referências
- IBGE. Censo Demográfico 2022 — pessoas de 2 anos ou mais por tipo e grau de dificuldade funcional (tabela 10133). Resultados da amostra.
- IBGE. Censo Demográfico 2022 — população residente por sexo e idade (tabela 9514).
- Organização Mundial da Saúde. World report on hearing (2021).
- World Health Organization. Deafness and hearing loss — ficha informativa.
- Livingston G. et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission.
- Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF). Materiais informativos sobre saúde auditiva.
Os números de população e de dificuldade auditiva deste texto são do Censo Demográfico 2022 do IBGE, consultado em setembro de 2026, e podem ser conferidos nas tabelas indicadas. Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Otoserrana · Itaipava
Zumbido, perda auditiva, doenças do labirinto, tontura e implante coclear.
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Escrito por
Dr. Denis Melo Rangel
Otorrinolaringologista
Cuidado em otorrinolaringologia com dedicação especial à audição — do diagnóstico preciso ao tratamento, incluindo surdez e cirurgia de implante coclear, para adultos e crianças.
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