Ouvido & Audição
Labirintite, tontura ou vertigem? O que cada uma quer dizer — e o que fazer
"Doutor, acho que estou com labirintite." Na maioria das vezes, não está. Entenda por que "labirintite" virou apelido de qualquer tontura, qual é a causa mais comum de vertigem, como ela é identificada na consulta e por que o tratamento dela não é remédio — é uma manobra.
Resumo Os pontos principais antes de ler tudo.
- "Labirintite" virou apelido de qualquer tontura, mas é uma doença específica — inflamação do labirinto — e não é a causa mais comum.
- Tontura não é diagnóstico, é sintoma: vertigem (sensação de girar), sensação de desmaio, desequilíbrio e "cabeça leve" apontam para grupos de causas diferentes.
- A causa mais frequente de vertigem é a VPPB, a "tontura dos cristais": crises de segundos disparadas por virar na cama, deitar ou olhar para cima.
- O tratamento da VPPB não é remédio, é uma manobra de reposicionamento feita na consulta — e as diretrizes recomendam contra o uso rotineiro dos remédios para tontura.
- Não fazer a manobra em casa vendo vídeo: ela depende do canal e do lado, definidos por um teste. E tontura com fraqueza, fala arrastada, visão dupla ou perda auditiva súbita é urgência.
A frase chega quase pronta no consultório: "Doutor, acho que estou com labirintite." E a minha resposta costuma surpreender: na maioria das vezes, não está. "Labirintite" virou o apelido de qualquer tontura, mas ela é uma doença específica — e bem menos comum do que o nome sugere. Bem, isso não é briga por palavra. É que o tratamento muda conforme a etiologia, ou seja, a causa, e um apelido genérico é justamente o que impede de chegar nela.
"Labirintite" quase nunca é labirintite
O labirinto é a parte do ouvido interno responsável pelo equilíbrio. O sufixo -ite, em medicina, quer dizer inflamação — ou seja, "labirintite" significa, ao pé da letra, inflamação do labirinto. Isso existe, e eu explico adiante como é. Mas é só uma das causas possíveis de tontura, e não a mais frequente.
Durante muito tempo, qualquer tontura recebeu esse nome — do paciente e também de profissionais que não trabalham com o sistema vestibular no dia a dia. O problema prático é este: quem sai da consulta com "labirintite" costuma sair também com um remédio para tontura e sem investigação nenhuma. E aí o quadro volta.
Eu sempre falo que tontura não é diagnóstico, é sintoma — do mesmo jeito que febre não é diagnóstico. O trabalho da consulta é descobrir de onde ela vem.
Tontura e vertigem não são a mesma queixa
Essa distinção parece detalhe e é o primeiro passo da investigação, porque cada tipo aponta para um grupo diferente de causas. Quando eu pergunto "como é a sua tontura?", é isso que estou tentando separar:
- Vertigem — a sensação de que você ou o ambiente estão girando. É a que mais aponta para o labirinto.
- Sensação de desmaio iminente — a "vista escurecendo", aquela impressão de que vai desfalecer. Costuma ter mais a ver com pressão e circulação.
- Desequilíbrio — a instabilidade ao andar, sem giro. Aparece muito em pessoas mais velhas, e frequentemente tem mais de uma causa somada.
- Tontura inespecífica — a sensação de "cabeça leve" ou de flutuar, difícil de descrever.
Por esse motivo, quando você for à consulta, vale prestar atenção em três coisas antes: como é a sensação, quanto tempo dura cada episódio (segundos? horas? dias?) e o que dispara. Essas três respostas resolvem boa parte do diagnóstico — e são informação que só você tem.
A causa mais comum tem nome — e não é labirintite
A causa mais frequente de vertigem é a VPPB, ou seja, a vertigem posicional paroxística benigna. O nome é comprido, mas cada pedaço dele descreve o quadro: posicional porque a crise vem quando você muda de posição; paroxística porque vem em crises curtas; benigna porque não é sinal de doença grave.
Ela é popularmente chamada de "tontura dos cristais", e o apelido, esse, ajuda: dentro do labirinto existem pequenos cristais de carbonato de cálcio que ficam num lugar certo. Quando alguns se soltam e migram para um dos canais do labirinto, cada movimento da cabeça passa a mandar ao cérebro uma informação de movimento que não está acontecendo. O resultado é a vertigem.
O quadro é bem característico: crises de segundos, disparadas por virar na cama, deitar, levantar, olhar para cima ou abaixar a cabeça. Entre as crises, a pessoa fica bem — o que confunde muita gente, porque dá a impressão de que "passou".
As outras causas que a gente investiga
Além da VPPB, algumas causas aparecem com frequência na otoneurologia — que é a área da otorrinolaringologia que cuida de tontura, vertigem e zumbido:
- Neurite vestibular — inflamação do nervo do equilíbrio. Dá uma vertigem intensa de início súbito, que dura horas a dias, e costuma vir depois de um quadro viral. Aqui a audição fica preservada.
- Labirintite, a de verdade — o mesmo tipo de quadro, mas com perda auditiva do mesmo lado. Ou seja: o que separa uma da outra é a audição.
- Doença de Ménière — crises de vertigem que duram de minutos a horas, acompanhadas de perda auditiva que flutua, zumbido e sensação de ouvido cheio, quase sempre de um lado só.
- Migrânea vestibular — enxaqueca que se manifesta com tontura, às vezes sem dor de cabeça na hora. É bem mais comum do que se imagina e passa despercebida com frequência.
- E o que não é do ouvido: pressão, alterações do ritmo do coração, efeito de medicação, anemia, problemas cervicais e causas neurológicas.
Repare que várias dessas causas envolvem a audição. Não é coincidência: equilíbrio e audição dividem o mesmo órgão e o mesmo nervo. É por isso que a audiometria costuma entrar na investigação de quem chega com tontura, e por isso quem tem zumbido às vezes tem as duas queixas juntas.
Como se investiga uma tontura
Bem, a investigação começa pela conversa — e ela vale mais do que parece. Tipo da sensação, duração, gatilho, se há perda auditiva ou zumbido junto, que medicações a pessoa usa, se houve virose recente. Boa parte do diagnóstico se define aí.
Depois vem o exame na própria consulta. Nele, a gente observa os movimentos dos olhos, que é onde o labirinto se denuncia: quando o sistema vestibular está sendo estimulado de forma anormal, os olhos fazem um movimento involuntário e característico, o nistagmo. Existem testes de posicionamento — o mais conhecido leva o nome de Dix-Hallpike — em que a gente deita a pessoa numa posição específica, com a cabeça virada, justamente para provocar e observar essa resposta. É assim que se identifica a VPPB e, muito importante, de que lado e em qual canal ela está.
A audiometria entra para avaliar a audição, pelo motivo que expliquei acima. E exame de imagem não é rotina: as diretrizes da Academia Americana de Otorrinolaringologia recomendam contra pedir imagem quando o quadro já preenche os critérios da vertigem posicional e não há nada apontando para outra coisa. Ou seja, imagem tem indicação — mas não como primeiro passo de toda tontura.
Por que remédio de tontura não é o tratamento
Este é o ponto que mais muda a vida de quem chega aqui depois de anos de queixa. No caso da VPPB, o tratamento não é medicamento: é uma manobra de reposicionamento, feita na consulta, que reconduz aqueles cristais de volta ao lugar onde deveriam estar. A mais conhecida é a manobra de Epley.
E as mesmas diretrizes internacionais são explícitas em recomendar contra o uso rotineiro dos remédios para tontura — os supressores vestibulares, ou seja, anti-histamínicos e benzodiazepínicos — nesse quadro. Eles mascaram o sintoma, deixam a pessoa sonolenta e, além disso, atrapalham a compensação, que é o processo pelo qual o cérebro se reajusta. Em idoso, sonolência ainda soma risco de queda a um quadro que já desequilibra.
Isso não significa que remédio nunca entra: em crises agudas muito intensas, por períodos curtos, ele tem lugar. O que a evidência desaconselha é ele ser o tratamento, sozinho e por tempo indeterminado, no lugar de tratar a causa.
Uma advertência que eu faço questão de deixar registrada: não faça a manobra em casa vendo vídeo. A manobra correta depende do canal e do lado, e isso é definido pelo teste. A manobra errada não trata e pode piorar a crise — e, se a sua tontura não for VPPB, você passa semanas repetindo um exercício enquanto a causa real segue sem diagnóstico.
Para as outras causas, o caminho é o da causa: tratamento próprio na Ménière, manejo da migrânea vestibular, reabilitação vestibular com fonoaudiologia quando há necessidade de reeducar o equilíbrio, revisão de medicação quando ela é a responsável.
Os sinais que não esperam consulta
A maioria das tonturas é investigada com calma, no consultório. Mas alguns quadros precisam de atendimento de urgência no mesmo dia, porque podem indicar causa neurológica:
- tontura junto de fraqueza ou dormência em um lado do corpo;
- dificuldade para falar, para engolir ou visão dupla;
- dor de cabeça súbita e muito forte, diferente das habituais;
- incapacidade de ficar em pé ou de andar mesmo com apoio, durante a crise;
- tontura após traumatismo na cabeça;
- perda auditiva súbita de um ouvido junto da tontura — essa é uma urgência otorrinolaringológica por si só.
Nesses casos o lugar é o pronto-socorro, não a agenda do consultório. Nós não fazemos atendimento de emergência aqui, e é honesto dizer isso.
Fora dessas situações, a régua é a de sempre: tontura que não passa, que volta sempre ou que atrapalha o que você faz — dirigir, trabalhar, sair de casa — merece avaliação. E eu insisto num ponto: conviver com tontura não é só desconforto. Depois dos 60 anos, ela é fator de risco para queda, e queda é evento sério. Por isso não vale "ir levando".
Alguma dúvida ou alguma pergunta sobre a sua tontura, eu vou ter o maior prazer de responder na avaliação.
Dúvidas frequentes
Quem trata tontura: o otorrino ou o neurologista?
Depende da causa, e por isso a investigação vem antes. O labirinto fica dentro do ouvido, então a tontura de origem vestibular é avaliada pelo otorrinolaringologista — a área chamada de otoneurologia. Mas tontura também pode vir de pressão, coração, medicação e de causas neurológicas, e aí o caminho é outra especialidade. A avaliação serve justamente para separar isso.
Posso fazer a manobra de reposicionamento em casa, vendo vídeo?
Não é o recomendado. A manobra correta depende de qual canal do labirinto está envolvido e de qual lado, e isso é definido por um teste feito na consulta. A manobra errada não trata e pode piorar a crise. E, se a sua tontura não for do labirinto, repetir manobra em casa por semanas só adia a investigação da causa real.
Existe exame para tontura?
Existem, mas a avaliação começa pela conversa e pelo exame na própria consulta, com testes de posicionamento e a observação dos movimentos dos olhos. A audiometria costuma entrar porque a audição ajuda a separar as causas. Exame de imagem não é rotina: as diretrizes recomendam contra pedir imagem quando o quadro já preenche os critérios de vertigem posicional e não há sinais que apontem para outra coisa.
Qual a diferença entre labirintite e neurite vestibular?
Está na audição. As duas dão vertigem intensa de início súbito, que dura horas ou dias. Na neurite vestibular só o equilíbrio é afetado; quando há também perda auditiva do mesmo lado, o quadro passa a ser chamado de labirintite.
Tontura que vai e volta há anos ainda vale investigar?
Vale. Tontura antiga costuma ter recebido um rótulo genérico e nenhum diagnóstico. E como o tratamento muda conforme a causa, é justamente o quadro que nunca foi investigado direito que mais tem a ganhar com uma avaliação.
Referências
- Bhattacharyya N. et al. Clinical Practice Guideline: Benign Paroxysmal Positional Vertigo (Update). American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery Foundation, 2017.
- AAO-HNSF. Plain Language Summary: Benign Paroxysmal Positional Vertigo — o resumo da diretriz em linguagem para o público.
- American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery. Clinical Practice Guideline: BPPV.
- Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF). Materiais informativos.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Os quadros descritos aqui têm apresentações variadas, e só a consulta permite identificar a causa da sua tontura.
Otoserrana · Itaipava
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Escrito por
Dr. Denis Melo Rangel
Otorrinolaringologista
Cuidado em otorrinolaringologia com dedicação especial à audição — do diagnóstico preciso ao tratamento, incluindo surdez e cirurgia de implante coclear, para adultos e crianças.
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